E se o meu filho pedir a Lua? de Carlos González

Num artigo escrito para a revista brasileira  Crescer, Dr. Carlos González,  pediatria espanhol e autor de vários best-sellers de puericultura e pedagogia, volta a mostrar-nos a importância do afecto na educação dos nossos filhos.

Dr. Carlos González: “E se meu filho pedir a Lua?”

Há muitos e muitos anos, quando eu era um pai de primeira viagem, me lembro que outro pai estava me contando com orgulho como tinha resolvido o problema de sua filha de 6 anos, que chorava a noite inteira, chamando pela mãe. Ele tinha deixado a menina chorar sozinha em seu quarto, até parar. Chorou mais de uma hora por uns dois dias e, logo, não chorou mais.

– Eu não deixaria minha filha chorar, disse eu.

– Sim, claro… Mas, e se ela pedisse a Lua a você?

Nunca, em todos esses anos, nenhum dos meus filhos me pediu a Lua. Tampouco sei para que eles iriam querê-la. Mas, desde a conversa com aquele pai, tenho a resposta pronta. Se, algum dia, uma criança me pedir a Lua, eu direi: “Desculpe, amor, não é possível. Ela está muito longe e não dá para alcançá-la”.

E se crianças me pedirem balas, eu direi que não tenho, porque em casa não compramos doces. E se me pedirem para comprar, eu direi que não dá, porque as balas fazem mal para os dentes.

Se me pedirem um cavalo, direi que é muito caro e que, além disso, não podemos ter um animal assim em casa, porque vivemos na cidade.

Se, aos 6 anos, me pedirem uma bicicleta para andar pela rua, eu direi que elas são muito pequenas e que há muitos carros e é perigoso.

Se me pedirem macarrão em um dia em que preparei lentilhas, eu direi que não, sinto muito, mas hoje temos lentilhas e farei macarrão em algum outro dia.

Se pedirem para ficar até tarde assistindo à televisão, eu direi que não dá, porque é hora de ir para a cama e, afinal, amanhã será preciso acordar cedo para ir à escola.

Se pedirem, pela manhã, que eu fique em casa brincando com elas, eu direi que gostaria, mas que preciso ir trabalhar.

Se me pedirem uma maçã e em casa não tiver nenhuma, eu direi que agora não tenho tempo de ir comprar.

Se me pedirem um brinquedo, talvez eu diga que elas já têm muitos com que brincar e que isso é caro, e que é melhor deixar para o dia do aniversário…

Definitivamente, dizer ‘não’ a algumas coisas que as crianças pedem é bom e, inclusive, necessário para o crescimento, a maturidade, educação e estabilidade mental delas, não tenho por que me preocupar. Haverá mil oportunidades para negar coisas a elas, com argumentos lógicos e de uma maneira completamente justificada.

No entanto, se os pequenos me pedem algo que eu posso oferecer, que tenho tempo e dinheiro para dar, que não faz mal para a saúde deles, nem para a economia familiar, nem para o meio ambiente, eu darei. E, muito particularmente, se o que me pedem é minha atenção, meu tempo, meus braços, meu carinho, eu darei. Ainda que seja à meia-noite. Eu lhes daria a Lua, se pudesse.

Texto de Dr. Carlos González publicado na revista brasileira Crescer.

 

 

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